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Paul Gauguin, na Tate Modern

Um dos prazeres oferecidos por grandes eventos culturais é o prazer preparatório.

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E numa cidade como Londres grandes eventos culturais são eternamente parte da vida. Ainda não fui ver a exposição de obras de Paul Gauguin, na Tate Modern, mas já estou curtindo os prazeres de minha pré-visita.

São duas categorias de prazer: prazeres Tate Modern e prazeres Paul Gauguin.

Prazeres Tate Modern são prazeres intrinsicamente londrinos. Quando olho para a Tate Modern de minha mente vejo a grande chaminé, como um mastro de navio, contra o céu cinza escuro, com rasgos de nuvens brilhantes, recheadas de sol. O rio cor de ferro, impregnado de sua antiguidade corre, em minha mente, em direção ao interior da Inglaterra. Vejo o Rio Tâmisa enchendo. Sobre ele lança-se a Millenium Bridge, que balançou quando a Rainha Elizabeth passou por ela pela primeira vez. A Millenium Bridge é como uma assinatura do tempo. Sua modernidade não é a modernidade da Tate Modern – que é a modernidade na Revolução Industrial –, mas a modernidade de hoje, já pra lá de pós-modernista. Sua modernidade encontra um eco nos jardins diante da Tate Modern. Mas um eco curioso para um brasileiro, porque suas árvores parecem que foram desenhadas pelo Oscar Niemeyer. São como os edifícios de Brasília. São como soldados em fila.

E pensar que vi a Tate Modern nascer. Sua estrutura é antiga, como é a estrutura de todo bebê, mas a Tate é Modern. Vi a Tate Modern nascer, mas vi de longe. Quando fui visitá-la já estava aberta ao público, com a aranha gigantesca da escultora francesa Louise Bourgeois, que morreu em junho deste ano aos 98 anos de idade, em Nova Iorque.

Prazeres Paul Gauguin são prazeres intrinsicamente Paul Gauguin, que era francês, nascido em Paris, em 1848, mas fi lho de mãe meio peruana, proto-socialista e pioneira do feminismo. Paul Gauguin morou uns anos em Lima quando criança. Mas depois voltou com a família para a Europa. Trabalhou para a marinha mercante. Casou com uma dinamarquesa. Foi morarem Copenhagen. Foi homem de negócios. Trabalhava no mercado fi nanceiro. Acabou não conseguindo evitar virar pintor de tempo integral. Abandonou a família e voltou para Paris. Passou nove semanas pintando com Vincent Van Gough em Arles, na França. Andava desencantado como impressionismo francês. Achava que arte chamada primitiva, arte africana e asiática. Não foi reconhecido. Decidiu abandonar a Europa e sua convenções sociais ‘artifi ciais’ em suas palavras. Quis um paraíso tropical, onde pudesse viver de ‘frutas e peixe’. Tentou a Martinica. Tentou o Panamá. Produziu muito onde pensou que encontraria o paraíso. Ta tudo lá na arte dele. Na vida das cores, na quebra com o impressionismo. Tá na Tate Modern. Paul Gauguin morreu na Polinésia, onde está enterrado. Faz mais de cem anos que ele se foi. Os quadros, por outro lado, vieram para ficar. No domingo, com sorte, estarei na Tate Modern, desfrutando de um prazer mais imediato.

– por André Souza, brasileiro,tradutor e intérprete, residindo em Londres há treze anos.
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